“Tinha uma pedra no meio do caminho”

Publicado: 24 de fevereiro de 2011 em Espaço do Cineclubista
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E o filme da vez é “127 Hours”, ou “127 Horas”, do diretor Danny Boyle, o mesmo do filme ganhador do Oscar de Melhor Filme em 2009, “Slumdog Milionaire”.

Se você achou que “Black Swan” tinha cenas ‘intragáveis’ de auto mutilação e, portanto, saiu do cinema com o estômago revirado, então sugiro que quando for assistir “127 Horas” leve um saquinho para vômito ou, no máximo, um bom remédio para enjôo. O filme é recheado de cenas fortes, que vale a pena lembrar aquela conhecida frase “Proibido para maiores de 65 anos ou para quem tem problemas cardíacos”. Mas se você estiver a fim de encarar esse “show de bizarrice” à parte, esteja a vontade em deliciar esse Thriller com alto nível de tensão e estresse.

O filme é uma adaptação do livro homônimo escrito pelo próprio Aron Ralston (James Franco), que ao escalar o John Blue, nas montanhas de Utah, nos Estados Unidos, sem avisar a nenhum conhecido, acaba sofrendo um acidente e tendo seu braço direito esmagado por uma pedra. Foram exatas 127 horas, 5 dias e 7 horas, entre sede, fome, alucinações, chuva, sol, poeira, torniquetes, entre outras coisas, que são narradas no livro e foram traduzidas, semioticamente falando, para as telas do cinema.

A princípio mais um roteiro em que mostra até que ponto vão os limites do corpo humano e de como superá-los. No entanto, roteiro à parte, o que faz desse filme um espetáculo durante seus 93 minutos, é a trilha sonora, juntamente com a fotografia e direção de arte. Os enquadramentos em primeiro plano, que retratam situações que, normalmente, jamais passariam em nossas cabeças, mas que passam nas de quem está entre a vida e a morte e que um leve fechar de pálpebras, pode significar o seu ultimo suspiro, são fantásticos em sua velocidade de video clipe. Os takes internos que mostram Aron bebendo água, sua urina e até mesmo seu sangue, ele comendo suas lentes de contato, o interior de suas veias, a parte interna do braço, no momento em que detecta a que distância entre a epiderme e o osso, o acelerar do cabeçote da câmera, o simples registro de uma formiga a caminhar pela terra ou por ele; o interior da garrafa de água e do cano de sua sacola térmica e a sequencia final de sua angústia, são verdadeiras obras de arte de pura apreciação, como também, de pura repulsa. É um misto de ansiedade pela liberdade dele, e ao mesmo tempo uma tremenda agonia quanto às cenas mais pormenorizadas que mostram como o tempo passa len-ta-men-te para quem está naquilo. Seja para o próprio Ralston, ou para quem assiste ao filme. Temos então aí, uma boa direção, que em parceria com sua equipe de produção, edição, som, mixagem de som, montagem e por aí vai, criaram um filme eletrizante! Ah! Não posso esquecer também dos diversos enquadramentos que retratam toda a caminhada de Franco até o local fatídico, mas, principalmente, os que mostram suas alucinações e instantes que ele passa preso na pedra. São, como já disse antes, verdadeiras obras de apreciação.

A película mostra também os momentos de alucinação que Aron passa, e compara o ápice do seu limite de paciência e esperança, incluindo o tempo que falta para o desfecho do filme, com o descarregar da bateria de sua filmadora. Ele alucina o seu passado, o seu futuro e o seu presente. Vê seus familiares em diversas épocas de sua vida, como também de seus colegas de trabalho e a mulher que amava. Desculpa-se, ilustrativamente, por não poder comparecer a eventos que ocorrerão, já que pressupõe sua morte, no entanto é assim que ele arranja forças para continuar sua luta. São sequencias de cenas, que bem montadas e editadas, em vários planos e com angulações diversas, traduziram visualmente, o que o psicológico de Ralston teria passado pelo que deve ser narrado no livro, como fazem o mesmo para quem assiste esses momentos. A partir de suas alucinações iniciais, ele chega ao que eu diria ser a mais caótica. Deduz que a pedra, que prendera seu braço, o aguardava naquele local por toda a sua vida e que todos os seus atos egoístas, que cometera até então, têm sua justificativa por causa daquele objeto, que estaria pondo sua vida em risco. Uma espécie de loucura compreensível para quem está vivendo aquilo. Contudo, vale ressaltar que a sucessão de cenas finais da fenda em que a personagem real de Franco se encontra, acaba sendo, exageradamente, sensacionalista e apelativa. Não é a toa que o diretor Boyle, teve que se desculpar, em público, aos muitos que passaram mal assistindo ao filme, tendo alguns que inclusive, deram entrada em hospitais, pelas cenas bem fortes que viram. Tudo bem que no livro, os fatos tenham sido narrados com extrema delicadeza e requintes de frieza, mas quem assiste não é obrigado a passar vários minutos vendo uma mesma coisa narrada, filmograficamente falando, de maneira cruel. Por mais que muitos digam não ser para tanto, haver desmaios e adjacências.

A atuação de James Franco está ótima. Ele, com certeza, deve transparecer mesmo cada segundo de aflição e tensão que o verdadeiro Aron Ralston passou durante aquelas 127 horas preso pelo braço em uma rocha que deslizou por cima dele. As indicações que recebeu por Melhor Ator, no Oscar de 2011, e a de Melhor Ator de Drama, no Globo de Ouro 2011, são mais do que justas. Ele realmente merece esse reconhecimento por seu trabalho. Afinal, é ele quem leva todo filme em suas costas. A crítica especializada afirma ainda que, James Franco interpretou bem melhor Aron Ralston do que o próprio. Uma salva de palmas para ele, meus caros e queridos leitores! Obrigado!

“127 Hours” recebeu seis indicações ao Oscar 2011, que foram as de Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Canção Original, Melhor Trilha Sonora e Melhor Montagem. Recebeu 3 indicações ao Globo de Ouro 2011, que foram de Melhor Ator de Drama, Melhor Roteiro e Melhor Trilha Sonora. E foi indicado a Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator no Film Independet Spirit Awards (FISA), que terá sua premiação na véspera do Oscar, dia 26 de fevereiro de 2011. Segundo, mais uma vez, os críticos profissionais, o filme é bastante impactante, com os diversos “cacos” problemáticos típicos da direção de Boyle, e, portanto, não deve ser levado em consideração como um forte candidato às premiações que teve. Tanto que, tirando o Oscar e o Fisa, nas do Globo de Ouro, premiação que é boa, zero!

“127 Horas”, produzido em 2010, com direção de Danny Boyle, roteiro adaptado por Danny Boyle e Simon Beaufoy, baseado no livro homônimo de Aron Ralston, com fotografia de Enrique Chediak e Anthony Dod Mantle, direção de arte de Christopher R. DeMuri, música de A.R. Rahman, figurino de Suttirat Larlarb, edição de John Harris, tem duração aproximada de 93 minutos, incluindo os créditos finais.

 

Por Ricardo Montalvão

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