Arquivo de abril, 2011

De 28 de abril a 1º de maio, estudantes e profissionais de diferentes partes do Brasil participarão do I Festival de Cinema Universitário de Sergipe (Sercine), que acontecerá em Aracaju e contará com exibições de curtas, oficinas de produção, discussões sobre o universo cinematográfico e uma mostra competitiva. O idealizador do projeto, Baruch Blumberg, estudante do curso de Audiovisual da UFS e sócio-fundador do Kipá, fala sobre a sua paixão por cinema e sobre os desafios de realizar o evento que promete movimentar o cenário audiovisual no nosso Estado.

Kipá – Como surgiu o seu interesse por cinema e quando você decidiu que queria trabalhar com a linguagem audiovisual?

Baruch B. – Sou aficionado por cinema desde criança e sempre sonhei em trabalhar neste meio, mas há alguns anos decidi que gostaria de viver de audiovisual, trabalhando com isso.

Kipá – Quais são as suas maiores influências no cinema brasileiro e no cinema internacional?

Baruch B. – No cinema nacional, sou muito fã do Júlio Bressane e do Glauber Rocha, pelos seus experimentalismos. Sou também cada vez mais fã dos trabalhos do Rodrigo Grota, pelo seu esmero técnico e poético. Já dos de fora, gosto muito do Richard Linklater e do Darren Aronofsky, por suas diversificações temáticas e estéticas, e do Krzysztof Kieslowski e do Robert Bresson, pela simplicidade complexa, se é que você me entende (risos).

Kipá – Por que investir em cinema em Sergipe?

Baruch B. – Por todas as suas potencialidades, o setor do Audiovisual/Cinema vem crescendo em todo o mundo e em Sergipe não é diferente. Temos o Curta-se, caminhando para sua 11ª edição, o NPD Orlando Vieira, que é uma ferramenta fundamental de capacitação e fomento da área em Sergipe, como também o curso de audiovisual da UFS, que, acredito, com os investimentos necessários pode se tornar em um dos melhores cursos de audiovisual do país. Há também o surgimento, cada vez mais, de pessoas interessadas em produzir no estado.

Kipá – O que é o Sercine e quem são as pessoas à frente do projeto?

Baruch B. – O Sercine é um festival de cinema universitário que surge com o propósito não só de provocar os realizadores universitários a produzirem cada vez mais, como também de movimentar o setor audiovisual sergipano nesta direção (do cinema universitário), que tem como forte característica a busca pelo experimentalismo técnico e estético. A Jéssica Araújo, o Renan Henriques e o Arthur Pinto são algumas das pessoas que trabalham comigo no projeto.

Kipá – O que é preciso para participar do Sercine?

Baruch B. – O Sercine é aberto ao público e todos podem participar das suas atividades. A programação do festival estará disponível no nosso blog a partir da próxima semana.

Kipá – O que o festival deve trazer de novo para a produção audiovisual no nosso Estado?

Baruch B. – O festival deve possibilitar a ampliação nas discussões em torno deste cenário que cresce cada vez mais, que é a ligação entre o cinema e a universidade. Além disso, os realizadores sergipanos terão acesso a produções universitárias de outros estados e haverá uma maior aproximação entre os setores que compõe o cenário audiovisual sergipano.

Kipá – Você participou da criação do curso de audiovisual da UFS e agora desenvolve um festival de cinema universitário, como é para você a relação entre o cinema e o meio acadêmico?

Baruch B. – Acredito ser de extrema importância a proximidade do setor acadêmico com qualquer atividade social e com o audiovisual não é diferente, é a busca por unir as discussões do âmbito acadêmico com as do meio mais prático.

Kipá – Como membro do Kipá e atual responsável pela Coordenação do nosso Cineclube, que papel você atribui ao Instituto num cenário em que a produção audiovisual e a própria discussão sobre temas relacionados ao cinema são ainda incipientes?

Baruch B. – O Instituto Kipá exerce um papel fundamental nesse sentido, pois busca, seja no Fórum do Audiovisual, seja no CineKipá, fomentar discussões capazes de fortalecer e de expandir o cenário audiovisual sergipano, criando  mecanismos organizados de luta pelo setor.

Kipá – Quais as suas perspectivas para o mercado audiovisual sergipano nos próximos anos?

Baruch B. – Espero que Sergipe se torne um mercado de expansão e descentralização, pois quanto mais diversidades de atores tiverem o setor, mais respeitado ele será.

por Chris Matos | foto: Acervo Kipá

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Noite de estreia para o Cinema Sergipano

Publicado: 8 de abril de 2011 em Diversos

“Xandrilá não é um projeto meu, do Isaac Dourado ou do Arthur Pinto. O filme carrega o nome do nosso Estado e é a prova de que Sergipe é um lugar propício para o cinema”, declarou André Aragão, diretor do curta lançado em grande estilo na noite da última quarta-feira. Diante de uma plateia numerosa, que lotou o Teatro Tiradentes, André falou do desafio que foi tocar o projeto e da satisfação ao constatar o resultado de tanto trabalho.

A ideia da realização do filme surgiu em setembro do ano passado, a partir da leitura do conto homônimo de Isaac Dourado, que decidiu dar vida a um dos seus personagens (Peper) e convidou a atriz e modelo Huana Paula para contracenar ao seu lado, no papel da atrevida Renata. A cantora Antônia Amorosa e o apresentador Bareta também participaram da produção.

Em pouco tempo, o conto transformou-se em roteiro cinematográfico pelas mãos de Cibele Nogueira e de André Aragão. A cantora Patrícia Polayne somou-se ao projeto e assinou a trilha sonora do filme, que contou ainda com músicas da banda sergipana Karne Krua. A fotografia ficou a cargo de Arthur Pinto, e as produtoras sergipanas SeteNove e Gonara Filmes tocaram o projeto, que também teve o apoio do Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira | Programa Olhar Brasil.

Antes da exibição do curta, Isaac Dourado apresentou algumas manchetes de jornal relativas a estupros, assassinatos e fraudes. Ele falou sobre como aquela realidade, tão frequente nos noticiários, serviu de base para a construção do filme. Dourado também criticou a falta de espaço na mídia para temas ligados à arte, à cultura, ao cinema. “Pra que ser artista, pra que fazer cinema se as manchetes dos jornais são sempre as mesmas?”, questionou.

Apresentações da cantora Patrícia Polayne e da banda Karne Krua também marcaram a noite de estreia. Antes de subir ao placo, Patrícia falou sobre a oportunidade de trabalhar junto com a equipe do filme. “Compor para o cinema é gostoso, porque se trabalha com a fantasia, com o imaginário. Xandrilá veio para quebrar tabus, e eu desejo muita sorte para o filme, porque eu acredito que ele vai marcar o cinema sergipano”, afirmou a cantora.

André Aragão e sua equipe apostaram num projeto ousado e tiveram bastante sucesso na produção do curta. O diretor acertou também ao afirmar, antes da exibição de Xandrilá, que “Sergipe é cultura, e Sergipe também é cinema”. Algo que pôde ser comprovado a partir da participação do público durante o lançamento do filme, que foi aplaudido com euforia ao final de sua apresentação.

por Chris Matos | fotos: Marcos Daniel

Mas o que é esse Xandrilá?!?!?

Publicado: 4 de abril de 2011 em Diversos

“Assistam o filme e vocês vão descobrir o que é o Xandrilá”

Últimas palavras da produção.

 

Para mais informações:

http://www.xandrila.blogspot.com/

“Tião e Lenardo Lacca em 1 minuto”

Publicado: 2 de abril de 2011 em Diversos

 

Tião e Leonardo Lacca são membros da produtora Pernambucana Trincheira Filmes e assinam a produção de curta-metragens como: “Décimo Segundo”, “Eisenstein” e “Muro” (premiado com o Regard Neuf, em Cannes).

Eles estiveram presentes no chá de cadeira promovido pelo Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira em março, em comemoração ao aniversário de Aracaju, e o Kipá aproveitou para puxar uma conversar sobre cinema e cultura.

Para conhecer mais sobre a Trincheira Filmes:

http://www.trincheirafilmes.com/

A estética documental tem ganhado força não apenas no cinema, mas também em diversos outros setores do audiovisual, como na publicidade, por exemplo. Ao mesmo tempo, percebe-se que a linguagem adotada no documentário, em que as narrativas se aproximam mais do real, torna-se cada vez mais híbrida, o que relativiza os limites entre o gênero e a ficção.

A riqueza do tema foi objeto de discussão entre estudantes, professores, profissionais da área e pessoas interessadas no assunto na noite de ontem, durante a abertura do ciclo de mesas temáticas do projeto Cine Olho – Cinema e Educação. O evento, que reafirma a parceria entre o Sesc e o Instituto Kipá, contou com a participação da jornalista Suyene Correia e da professora em Multimídia Beatriz Colucci e aconteceu no auditório do Sesc – Centro.

Durante as exposições das ministrantes, Suyene defendeu não haver competição entre o documentário e a ficção, e também aproveitou para ressaltar algumas das especificidades da linguagem documental. “A realização de um documentário é tão difícil quanto a de uma ficção. Talvez, a sua produção seja menos onerosa e mais viável, mas as dificuldades são as mesmas”, defende a jornalista.

“É importante lembrar que o documentário é realizado sempre a partir de um ponto de vista. Apesar de o cineasta tentar esvaziar-se de si mesmo na realização de um trabalho documental, esse exercício é muito complicado”, pontuou Beatriz ao definir como são tênues os limites entre a ficção e o documentário.

Suyene e Beatriz também aproveitaram o espaço para falar sobre a prática do cinema no nosso Estado. As duas concordam que a produção em Sergipe é ainda pequena e que a criação do curso de Audiovisual, assim como a instituição de núcleos formados por pessoas dispostas a discutir e produzir cinema, deve contribuir para fortalecer o cenário local. “O Instituto Kipá pode ser o início dessa mudança, no sentido de agir enquanto aglutinador dos sergipanos interessados no audiovisual”, declarou Suyene.

As mesas temáticas ocorrem durante as últimas quintas-feiras de cada mês, a partir das 19h. A participação é livre e a entrada é gratuita. A programação das próximas mesas estará disponível no site do Sesc www.sesc-se.com.br e no blog do Kipá.

por Chris Matos

“Deus e o Diabo na Terra do Sol” é um filme escrito e dirigido por Glauber Rocha. O filme começa com Emanuel e Rosa sofrendo com a seca, por conseqüência, a fome, a miséria se tornam presentes na vida desses sertanejos. Emanuel tem uma entrega a fazer, levar dezesseis vacas até o Coronel Morais. Ao chegar, quatro vacas tinham morrido picadas por cobras. Coronel Morais  diz que não vai pagar o vaqueiro. Então, Emanuel, lembrando da fome e da miséria que passa se desespera e mata o coronel.

A partir daí a saga do casal começa, fugindo da pobreza, indo à busca dos seus destinos. Vão ao encontro do beato Sebastião que se diz santo e milagreiro. O profeta promete a seus seguidores prosperidade e salvação. Ao longo da história o profeta se mostra louco, alucinado e promete o impossível ao povo, que com tanta miséria, fome e necessidades precisa ouvir algumas palavras confortadoras para continuarem suas pobres vidas. Emanuel acredita firmemente nas palavras do profeta, mas sua mulher Rosa, percebe a loucura do “falso” profeta. E depois de ver o assassinato de uma criança ela mata o beato Sebastião. Enquanto isso, Antonio das Mortes, um matador de aluguel, a mando dos latifundiários e da igreja, vai atrás do beato Sebastião e seus seguidores. Ao encontrá-los, Antonio, inicia uma chacina, deixando viver somente Emanuel e Rosa para que eles possam contar ao outros sobre a chacina.

Novamente, o casal se encontra perdido no sertão e acaba se encontrando com o bando de Corisco, cangaceiro remanescente do bando de Lampião. Corisco, sendo um homem destemido que muito sofreu na vida, batiza Manuel de Satanás e este agora tem novamente um sentido em sua vida, dessa vez completamente imerso no mundo do crime e do cangaço nordestino. Antônio das Mortes persegue de forma implacável e termina por matar e degolar Corisco, seguindo-se nova fuga de Manoel e Rosa, desta vez em direção ao mar.

“Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) é um dos filmes mais representativos do Cinema Novo, corrente artística liderada por Glauber Rocha, que teve como adeptos Nelson Pereira do Santos, Ruy Guerra, Joaquim Pedro de Andrade e Cacá Diegues entre outros diretores. Esse movimento foi fundado por jovens cineastas nos anos ciquenta. O cinema brasileiro estava em decadência depois das falências dos grandes estúdios. Rio, 40 Graus” (1955), filme de Nelson Pereira dos Santos, abre espaço para o início deste movimento, que tinha como principal influência o Neo-Realismo Italiano e a Nouvelle-Vague Francesa. Com orçamentos baixos, a principal proposta era fazer filmes anti-industriais, bárbaros e polêmicos.
Música de Heitor Villa-Lobos, do qual Glauber era extremamente fã, cantada por Sérgio Ricardo e com letras próprias do diretor. Ganhou diversos prêmios e festivais por todo o globo. Glauber Rocha, então com 23 anos, conseguiu seu lugar na eternidade com o filme que melhor simboliza o Cinema Novo, que melhor retrata a cultura folclórica brasileira.

Considerado por muitos o melhor filme brasileiro. Deus e o Diabo exemplifica bem a personalidade de Glauber. Sujeito complicado, ambíguo, controverso. Foi mandado para o exílio pelos militares. Traiu a esquerda, apoiou Geisel. Depois traiu os militares e ninguém mais o queria. Muito polêmico, conseguiu a admiração de críticos e cineastas. O próprio Martin Scorsese nunca escondeu sua paixão pela arte de Glauber Rocha e atualmente patrocina a recuperação dos filmes do cineasta baiano.

Glauber diz sobre o filme que: “Eu parti do texto poético. A origem de Deus e o Diabo é uma língua metafórica, a literatura de cordel. No Nordeste, os cegos, nos circos, nas feiras, nos teatros populares, começam uma história cantando: eu vou lhes contar uma história, que é de verdade e de imaginação, ou então, que é imaginação verdadeira. Toda minha formação foi feita nesse clima. A idéia do filme me veio espontaneamente.”

O cineasta baiano é até hoje símbolo daquele que muitos entendem que é o melhor momento do cinema brasileiro. Discutiu a forma como o cinema brasileiro se apresentava as pessoas, e principalmente, a forma como ainda nos colocávamos como latinos colonizados. Dizia que era a hora de nos libertamos desse estigma.


Por Cleiton Lobo