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E o filme da vez é “127 Hours”, ou “127 Horas”, do diretor Danny Boyle, o mesmo do filme ganhador do Oscar de Melhor Filme em 2009, “Slumdog Milionaire”.

Se você achou que “Black Swan” tinha cenas ‘intragáveis’ de auto mutilação e, portanto, saiu do cinema com o estômago revirado, então sugiro que quando for assistir “127 Horas” leve um saquinho para vômito ou, no máximo, um bom remédio para enjôo. O filme é recheado de cenas fortes, que vale a pena lembrar aquela conhecida frase “Proibido para maiores de 65 anos ou para quem tem problemas cardíacos”. Mas se você estiver a fim de encarar esse “show de bizarrice” à parte, esteja a vontade em deliciar esse Thriller com alto nível de tensão e estresse.

O filme é uma adaptação do livro homônimo escrito pelo próprio Aron Ralston (James Franco), que ao escalar o John Blue, nas montanhas de Utah, nos Estados Unidos, sem avisar a nenhum conhecido, acaba sofrendo um acidente e tendo seu braço direito esmagado por uma pedra. Foram exatas 127 horas, 5 dias e 7 horas, entre sede, fome, alucinações, chuva, sol, poeira, torniquetes, entre outras coisas, que são narradas no livro e foram traduzidas, semioticamente falando, para as telas do cinema.

A princípio mais um roteiro em que mostra até que ponto vão os limites do corpo humano e de como superá-los. No entanto, roteiro à parte, o que faz desse filme um espetáculo durante seus 93 minutos, é a trilha sonora, juntamente com a fotografia e direção de arte. Os enquadramentos em primeiro plano, que retratam situações que, normalmente, jamais passariam em nossas cabeças, mas que passam nas de quem está entre a vida e a morte e que um leve fechar de pálpebras, pode significar o seu ultimo suspiro, são fantásticos em sua velocidade de video clipe. Os takes internos que mostram Aron bebendo água, sua urina e até mesmo seu sangue, ele comendo suas lentes de contato, o interior de suas veias, a parte interna do braço, no momento em que detecta a que distância entre a epiderme e o osso, o acelerar do cabeçote da câmera, o simples registro de uma formiga a caminhar pela terra ou por ele; o interior da garrafa de água e do cano de sua sacola térmica e a sequencia final de sua angústia, são verdadeiras obras de arte de pura apreciação, como também, de pura repulsa. É um misto de ansiedade pela liberdade dele, e ao mesmo tempo uma tremenda agonia quanto às cenas mais pormenorizadas que mostram como o tempo passa len-ta-men-te para quem está naquilo. Seja para o próprio Ralston, ou para quem assiste ao filme. Temos então aí, uma boa direção, que em parceria com sua equipe de produção, edição, som, mixagem de som, montagem e por aí vai, criaram um filme eletrizante! Ah! Não posso esquecer também dos diversos enquadramentos que retratam toda a caminhada de Franco até o local fatídico, mas, principalmente, os que mostram suas alucinações e instantes que ele passa preso na pedra. São, como já disse antes, verdadeiras obras de apreciação.

A película mostra também os momentos de alucinação que Aron passa, e compara o ápice do seu limite de paciência e esperança, incluindo o tempo que falta para o desfecho do filme, com o descarregar da bateria de sua filmadora. Ele alucina o seu passado, o seu futuro e o seu presente. Vê seus familiares em diversas épocas de sua vida, como também de seus colegas de trabalho e a mulher que amava. Desculpa-se, ilustrativamente, por não poder comparecer a eventos que ocorrerão, já que pressupõe sua morte, no entanto é assim que ele arranja forças para continuar sua luta. São sequencias de cenas, que bem montadas e editadas, em vários planos e com angulações diversas, traduziram visualmente, o que o psicológico de Ralston teria passado pelo que deve ser narrado no livro, como fazem o mesmo para quem assiste esses momentos. A partir de suas alucinações iniciais, ele chega ao que eu diria ser a mais caótica. Deduz que a pedra, que prendera seu braço, o aguardava naquele local por toda a sua vida e que todos os seus atos egoístas, que cometera até então, têm sua justificativa por causa daquele objeto, que estaria pondo sua vida em risco. Uma espécie de loucura compreensível para quem está vivendo aquilo. Contudo, vale ressaltar que a sucessão de cenas finais da fenda em que a personagem real de Franco se encontra, acaba sendo, exageradamente, sensacionalista e apelativa. Não é a toa que o diretor Boyle, teve que se desculpar, em público, aos muitos que passaram mal assistindo ao filme, tendo alguns que inclusive, deram entrada em hospitais, pelas cenas bem fortes que viram. Tudo bem que no livro, os fatos tenham sido narrados com extrema delicadeza e requintes de frieza, mas quem assiste não é obrigado a passar vários minutos vendo uma mesma coisa narrada, filmograficamente falando, de maneira cruel. Por mais que muitos digam não ser para tanto, haver desmaios e adjacências.

A atuação de James Franco está ótima. Ele, com certeza, deve transparecer mesmo cada segundo de aflição e tensão que o verdadeiro Aron Ralston passou durante aquelas 127 horas preso pelo braço em uma rocha que deslizou por cima dele. As indicações que recebeu por Melhor Ator, no Oscar de 2011, e a de Melhor Ator de Drama, no Globo de Ouro 2011, são mais do que justas. Ele realmente merece esse reconhecimento por seu trabalho. Afinal, é ele quem leva todo filme em suas costas. A crítica especializada afirma ainda que, James Franco interpretou bem melhor Aron Ralston do que o próprio. Uma salva de palmas para ele, meus caros e queridos leitores! Obrigado!

“127 Hours” recebeu seis indicações ao Oscar 2011, que foram as de Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Canção Original, Melhor Trilha Sonora e Melhor Montagem. Recebeu 3 indicações ao Globo de Ouro 2011, que foram de Melhor Ator de Drama, Melhor Roteiro e Melhor Trilha Sonora. E foi indicado a Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator no Film Independet Spirit Awards (FISA), que terá sua premiação na véspera do Oscar, dia 26 de fevereiro de 2011. Segundo, mais uma vez, os críticos profissionais, o filme é bastante impactante, com os diversos “cacos” problemáticos típicos da direção de Boyle, e, portanto, não deve ser levado em consideração como um forte candidato às premiações que teve. Tanto que, tirando o Oscar e o Fisa, nas do Globo de Ouro, premiação que é boa, zero!

“127 Horas”, produzido em 2010, com direção de Danny Boyle, roteiro adaptado por Danny Boyle e Simon Beaufoy, baseado no livro homônimo de Aron Ralston, com fotografia de Enrique Chediak e Anthony Dod Mantle, direção de arte de Christopher R. DeMuri, música de A.R. Rahman, figurino de Suttirat Larlarb, edição de John Harris, tem duração aproximada de 93 minutos, incluindo os créditos finais.

 

Por Ricardo Montalvão

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Não há como negar. Fica difícil não torcer o nariz, ao ler a breve sinopse do filme O Vencedor (Fighter, 2010 – Imagem Filmes). A expressão mais comum permeia a cabeça de todos nós: “Pô, mais um filme de um boxeador falido?”. Sim, devo admitir, pensei algo parecido, muito antes de ter a oportunidade de ver a boa recepção da película durante a premiação do Globo de Ouro – vencedor dos prêmios de melhor ator coadjuvante (Christian Bale, que poderia ser confundido com o nome ‘A surpreendente maravilha’) e melhor atriz coadjuvante (Melissa Leo).

O entusiasmo de críticos e comentaristas despertou minha curiosidade (embora, isto venha se tornado um fator irrelevante nas minhas considerações sobre ver ou não um filme) e não pensei duas vezes em assisti-lo no cinema da minha cidade. Quase 2 horas de projeção, algo infinitamente grande para um filme que tenha uma história meia-boca. Sentei, as luzes baixaram, o projetor rodou e todas as minhas desconfianças cessaram a partir dos 10 primeiros minutos do longa. A única palavra que conseguia exprimir depois de toda esta agradável experiência foi: Sensacional!

Inicialmente, somos apresentados aos irmãos Dicky (Mark Wahlberg) e Micky (Bale) que estão participando da gravação de um documentário do canal HBO. A priori, somos levados a crer que o motivo para os lutadores de boxe (que se sustentam asfaltando as ruas da pequena cidade em que moram) participarem da tal gravação, deve-se aos feitos do irmão mais velho (Dicky) ter conseguido derrotar uma lenda do boxe e se tornar o ‘vencedor’ na disputa do título.

Aos poucos, vamos conhecendo de perto a rotina das personagens e o relacionamento deles com seus familiares. Na verdade, a família dos irmãos é a base central do comando de suas vidas. A mãe dos lutadores (a esplêndida Melissa Leo) rege com rédeas curtas a carreira profissional de Micky e é a responsável pelos fiascos do rapaz que desafia oponentes com uma preparação física bastante superior a sua.

Quando nos familiarizamos com o desenvolvimento da rotina dos protagonistas, passamos a perceber que os problemas vivenciados por ambos são muito mais interessantes, do que as situações gloriosas por que passaram. O primeiro conflito ou problema que salta aos nossos olhos é o comportamento instável de Dicky. Utilizando maneirismos que ora indicam clareza, ora transparecem uma perturbação sem precedentes, Dicky se mostra um personagem complexo e carregado de muita frustração ao ser lembrado por seus companheiros como o vencedor de um título que, algumas vezes, levanta dúvidas se realmente foi merecido.

Mesmo sendo bem quisto pela comunidade que pertence (de vez em quando ele é lembrado como um herói para os moradores), Dicky descarrega a sua frustração de viver no ostracismo esportivo, ao exigir do seu irmão constante reconhecimento como o principal responsável pela sua iniciação na vida do boxe. Transparecendo, muitas vezes, um egocentrismo e instabilidade emocional que resulta em grandes prejuízos para a carreira de Micky.

Além das intensas cenas envolvendo as relações conflituosas entre os parentes e agregados da família dos lutadores, o filme também possui como destaque as cenas de lutas que envolvem boa parte da projeção. O realismo conferido a algumas delas produz um resultado satisfatório nas telas e nos explica o motivo do diretor David O. Russel concorrer na categoria de Melhor Diretor no Oscar deste ano. O filme explora uma série de planos sofisticados, como: na abertura do filme em que Dicky ensaia os golpes que o eleveram à condição de lenda local; nas lutas filmadas em slow motion que são protagonizadas por Micky em boa parte da projeção; nas perturbadoras cenas do irmão mais velho em processo de abstinência pelo uso de drogas.

As sutis passagens de uma cena à outra revela uma montagem apropriada e bem planejada por Pamela Martin (também montadora do filme Pequena Miss Sunshine). O roteiro ficou nas mãos do trio Scott Silver, Paul Tamasy, Eric Johnson que também estão concorrendo ao Oscar de Melhor Roteiro Original.  Na direção de fotografia, o suíço Hoyte Van Hoytema mostra um resultado bastante competente e nos prova a sua segurança em realizar esta tarefa (algo que o público já presenciou no filme suíço Deixe Ela Entrar, que merece uma crítica posterior neste blog).

A soma de todos os excelentes desempenhos da equipe técnica, atores e diretores transformam o filme O Vencedor em um longa capaz de nos envolver emocionalmente e nos deixar empolgados com as sua sequencias de ação. Concorrendo a sete categorias no Oscar deste ano, o filme centra sua história nas complicadas relações familiares e utiliza as cenas de lutas como pano de fundo desta complicada relação.

Não há como deixar de destacar, as atuações do brilhante Christian Bale (mais lembrados pelos amantes do blockbuster como o mais recente Batman) e da admirável Melissa Leo (com uma extensa carreira na televisão norte-americana) que concorrem aos Oscars das categorias de Melhor Atriz e Ator Coadjuvante. Mark Wahlberg (lembrado nas telinhas da Rede Globo como o atrapalhado assassino de aluguel no filme Tiro e Queda) também transparece bastante segurança no filme, inclusive nas cenas que exigem uma grande carga de dramaticidade. Já a atriz Amy Adams mais uma vez nos dá a prova do porquê, de uns quatro anos para cá, vem se tornando uma das atrizes mais badaladas e requisitadas pelos estúdios (só observar as suas atuações memoráveis  nos filmes Julie & Julia e Dúvida).

Então, o que mais esperar? Aproveitem que o filme está passando no Cinemark de Aracaju (algo raro, já que os filmes besteirois dominam as exibições) e confiram este belo espetáculo visual. Importante ficar atento às cenas finais em que são mostrados os verdadeiros irmãos Dicky e Micky, e não deixar de comparar a atuação do Bale com a rápida aparição do efusivo Dick Eklund da vida real.

Por Andreza Lisboa

E o cisne voou

Publicado: 15 de fevereiro de 2011 em Espaço do Cineclubista
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Quando descobri a existência do filme “Black Swan”, ao assistir o trailer, tive todos os motivos do mundo para condená-lo já que aparentava distorcer a estória de “O Lago dos Cisnes”. Mas ainda bem que existe a redenção e posso então falar que ele me encantou do início ao fim, querendo entender os delírios de Nina Sayers (Natalie Portman).

O filme conta a estória de Nina Sayers, uma bailarina clássica, que vive na cidade de Nova Iorque, e almeja alcançar o papel principal da nova montagem de “O Lago dos Cisnes” da companhia em que trabalha. Pois bem, até aí seria um enredo normal como outro qualquer, se não fosse o mundo obscuro que rodeia nossa personagem principal. Nina, aparentemente, sofre de alucinações, mania de perseguição e auto mutilação, sem esquecer claro de um problema bastante comum no mundo das bailarinas, a bulimia.
A atriz Barbara Hershey vive a mãe de Nina, a senhora Erica Sayers. Uma mulher com seus quase 50 anos que teve de abdicar da vida de primeira bailarina da mesma companhia em que sua filha participa, para poder ser mãe. Carrega consigo a frustração pelo abandono da carreira profissional, embora ame fervorosamente sua cria. Além disso, sofre com os problemas psicológicos da garota.
Nina, com suas alucinações e delírios, conhece Lily (Mila Kunis), outra bailarina da companhia bastante parecida com ela. E então em sua mente atordoada, a senhorita Sayers começa sentir-se perseguida por Lily. Tudo isso, pois a personagem de Natalie Portman, crê que sua colega de companhia deseja tomar dela o papel principal daquele repertório de Ballet Clássico. O ator Vicent Cassel vive Thomas Leroy, o diretor artístico da montagem, que tenta seduzir Nina de todas as formas para que sua bailarina consiga interpretar o cisne negro tão bem quanto faz com o branco. Já que ele afirma que Sayers tem a fragilidade de Odette, o cisne branco, mas não a sedução e astúcia de Odille, o cisne negro. O enredo segue adentrando a estória do repertório a ser contado e como isso afeta a vida da jovem Nina Sayers.
Natalie Portman está deslumbrante no papel de Nina. Sua preparação corporal seja para interpretar uma jovem ansiosa por seu futuro e que desenvolve um distúrbio mental que a faz acreditar viver realmente uma história semelhante à que viverá nos palcos como Odette e Odille, seja como também para convencer como uma bailarina nata. Ela executa os dois lados da personagem com uma sutileza incrível de movimentos físicos, até mesmo os mais bruscos. Mila Kunis em sua incrível semelhança com a atriz principal, transpõe toda a força e sedução da personagem Odille em O Lago dos Cisnes, para a vida de Nina, fazendo com que a garota se afunde ainda mais em seus delírios. Barbara Hershey e Vicent Cassel estão fabulosos em seus papéis. Ela, uma mãe desnorteada por uma frustração profissional e desesperada por curar as loucuras da filha. E ele, um professor e diretor bastante exigente, que se usa de artifícios não tão corretos, para que sua primeira bailarina encarne realmente as duas personagens da estória. E por ultimo, e de maneira proposital, temos a atuação de Winona Rider, que interpreta Bethy Macintyre, a ex-primeira bailarina da companhia que acabara de perder o papel principal, por estar velha e a companhia precisar de mulheres mais novas. Bethy ao ser recusada pela companhia, contribui para a loucura de sua rival, infernizando muito bem a vida de Nina.
O início do filme se dá durante um sonho de Nina, meio que um prenuncio do que ocorrerá a jovem. Ela sonha consigo própria dançando a variação, ou seja, uma sequência de movimentos, do cisne branco com o vilão da estória que começa a perseguí-la. Nessa hora temos uma iluminação predominantemente verde, que pode ser traduzida pela personalidade dualista da garota. Que varia entre a apatia, causada pelo azul que é presente na cor verde, e a agressividade da cor vermelha. Embora não haja vermelho na junção que resulta na cor verde, temos o amarelo que é uma cor presente na família das cores quentes, a qual a cor vermelha é o carro chefe. Temos também excelentes enquadramentos da filmagem, enquanto são gravadas as cenas em que todos os bailarinos da companhia ensaiam as coreografias. E destaco principalmente as filmagens do ultimo ato de O Lago dos Cisnes.
A trilha sonora do filme é a mesma usada no repertório, cuja autoria é do maestro Piotr Ilyich Tchaikovsky, com adaptação de Clint Mansell e Matt Dunkley. Adaptações bem apropriadas, sem destruirem a obra principal.
“Black Swan”, produzido em 2010, tem direção de Darren Aronofsky, roteiro de John McLaughlin, direção de arte de David Stein, e fotografia de Matthew Libatique. O filme tem duração aproximada de 108 minutos, incluindo os créditos finais.