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Por Rodrigo Michell  Araújo

Este texto pretende não apenas ser uma leitura do Estética da Fome, de Glauber Rocha, quer estabelecer diálogos com os campos teóricos para a compreensão do cinema da década de 60,  de sua proposta , e assim ler o Brasil. Olhar o Outro é completá-lo e nós mesmos precisamos desse Outro para construir nossa identidade. Aquilo que o M. Bakhtin denominou de ‘Exotopia’ – o olhar de fora – pode ser aplicado aqui. O caso do Brasil é que o Outro nos colonizou, negou nossa identidade e valores, e fez afirmar a condição de colônia.

A figura do Europeu esteve presente não só numa esfera sócio-histórica como também na esfera da arte, a arte literária principalmente, e podemos ver esse reflexo nos estilos de época, mas foi preciso os modernistas de 20 para lançar uma estética de libertação, para nos desvencilhar e construir um projeto de literatura e língua nacional. Esse projeto veio pelas vias da Antropofagia, deglutindo o que vem de fora e transformando em produto nacional. O modernismo, de fato, desenhou uma singularidade, desde o romance fragmentado Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade – grande romance da prosa modernista, composto de pequenas cartas, sem linearidade narrativa, que vão construindo o enredo, e aí nos perguntamos:  isso é romance? – até os poemas-síntese ou a poética da brevidade (Humor, Cota-Zero etc) de duas, três linhas, passando pelo projeto nacionalista e de identidade com a cara folclórica em Mário de Andrade, o Brasil pôde ser Brasil e a literatura pôde ser tão bem revolucionária (para lembrar o conceito que Leyla Perrone-Moisés definiu).

A literatura de 30 trouxe o caráter edaz da década anterior em dois aspectos que quero falar rapidamente: primeiro na poesia, pois, como mostrou tão bem Mário de Andrade no fantástico livro Aspectos da Literatura Brasileira, o verso-livre atestou de forma significante não só a libertação da forma fixa, mas sim de um individualismo (individualismo característico da Modernidade); segundo na prosa, pois essa trouxe o tema do sertão por um viés de denúncia. Mas o sertão pintado pelo ‘regionalismo’ de 30 era um espaço opressor, onde era preciso a fuga. Os romances nordestinos, na esteira do espaço “Sertão”, vão apresentar dois aspectos-chave: primeiro, um sertanejo que não vive o seu espaço, não há a cosmicidade – conceito teorizado pelo filósofo Gaston Bachelard – na relação homem-meio. O sertanejo é seco como o sertão é e o faz. Nas obras, vemos os personagens fugindo do sertão rumo à cidade de chances, como Rachel de Queiroz em O Quinze, José Lins do Rego em Fogo Morto, Graciliano Ramos em Vidas Secas, José Américo de Almeida em A Bagaceira (este, refletindo bem essa questão dos retirantes paraibanos dos engenhos), Armando Fontes com Os Corumbas. Todos acabam de certo modo tornando-se retirantes.

Ao fazer esse percurso na literatura a partir de 20, vamos ver que essa ótica começa a mudar em dois caminhos: um, com a geração de 45, com Guimarães Rosa, no Grande Sertão: Veredas (que começa a mostrar que Sertão não é só opressão e o sertanejo não foge, ele nasce para lutar e para viver ‘sua terra’), e o outro com o Cinema Novo na década de 60, e falar de Cinema Novo sem falar do projeto estético literário que compreendeu o período de 20 a 45 me seria difícil.  O Cinema Novo vai resgatar esse homem miserável visto pelo romance de 30, mas com uma bravura singular, vai abraçar a realidade brasileira. É preciso mostrar o Brasil, e vai encontrar no sertão e no sertanejo. Na verdade, o Cinema Novo veio para romper com o comercialismo que findava o Cinema, ficando à margem da indústria (vejam que a mesma idéia de rompimento foi vista pelos Modernistas, mudou-se apenas o contexto). O Cinema Novo consegue sua máxima: construir um retrato do Brasil, o sertão como alegoria, pega esse “espaço físico” e, a partir dele, faz uma leitura de nação. Isso foi possível tanto nas adaptações literárias da primeira fase do Cinema Novo, Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, 1963, A Hora e a vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, 1965, Grande Sertão: Veredas, de Geraldo e Renato dos Santos Pereira, 1965, quanto no papel de Glauber Rocha.

Glauber é nome importante no Cinema Novo, não apelas pelos seus filmes, como também pelos livros Revolução do Cinema Novo e até pela tese Uma Estética da Fome (que lembra bem o Artista da Fome de Kafka, que veio discutir o papel do artista e da arte). E Glauber conseguiu explanar o papel da arte em seu momento, porém convém notar que ele trouxe para o cinema aquilo que a literatura fez como projeto décadas atrás. Peguemos como exemplo o próprio propósito de não-linearização da narrativa, a fragmentação da diegese. Essa linguagem de ruptura está presente nos filmes de Glauber, isto porque estamos fadados daquelas narrativas pontuais, “certinhas”, que estão nos filmes comerciais. A falta de linearidade (Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe – esse é o mais nítido – etc) é uma resposta ou podemos usar o termo “anti-comercialismo”, se preferirmos. A mesma fragmentação que Oswald trouxe. Para finalizar, trago aqui a teoria de M. Bakhtin que nada é novo, uma obra sempre vai relembrar uma outra: intertextualidade, como aquela dos palimpsestos da Idade Média, onde se raspava o escrito para que o pergaminho pudesse ser reescrito. Aqui repousa a emergência do texto de se construir diálogo, dialogismos.

 

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Cineclubistas do Kipá

Na última sexta-feira, 19, o Cinekipá – cineclube do Instituto de Estudos e Produção Audiovisual de Sergipe – deu início a suas atividades no Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira, que estabelece uma parceria com o Instituto. Os encontros do cineclube acontecem sempre às sextas a partir das 14h, onde o intuito inicial é estudar sobre textos que abordem diversas questões relacionadas ao contexto cinematográfico.

Camilla Monteiro, uma das selecionadas do Cinekipá

Para o primeiro encontro foi sugerido o texto ‘Uma estética da fome’ de Glauber Rocha, sendo exibido também trechos do filme ‘Deus e o diabo na terra do sol’, do próprio Glauber, onde  os cineclubistas puderam discutir e pensar sobre o movimento Cinema Novista. Percebeu-se também  uma alta expectativa com relação ao Cinekipá, como afirma Camilla Monteiro, uma das selecionadas para o cineclube. “Essa experiência tem tudo pra dar certo e vejo que o pessoal está bastante animado.” E ainda segundo Camilla  a proposta de disponibilizar o texto antes é importante para formação dos  estudantes. “A idéia de entregar o texto antes do encontro é essencial para que os cineclubistas possam pesquisar mais sobre o tema”, ratificou.

Marcel Magalhães, presidente do Instituto Kipá

Além dos selecionados, membros do Kipá também estavam presentes no primeiro encontro, como é o caso do presidente-fundador, Marcel Magalhães, que acredita ser crucial entender o processo de produção no cinema através da formação teórica. “O resultado do Cinekipá será positivo. O primeiro passo já foi dado, agora é focar na aprendizagem e depois interligar com a prática”, corroborou. Também esteve presente, Cleiton Lobo, um dos responsáveis pela coordenação do Cineclube, que no geral afirmou ser produtiva a primeira reunião dos cineclubistas. “As pessoas em sua maioria participaram ativamente. O tema por si só instiga, aguça, afinal é Cinema Novo. Chegamos até a falar sobre pornochanchada, só tenho a esperar bons frutos dessa nova jornada”, comentou.

Cleiton Lobo, um dos coordenadores do Cinekipá

Ainda em 2010

Para este ano o Cinekipá planeja estudar sobre temas alternativos, sem seguir uma ordem cronológica, devido à possível mudança de horário e inclusão de novos membros em 2011. Nesta sexta, 26, não haverá reunião do cineclube, por conta da Formação e Implantação do Fórum Audiovisual de Sergipe, que acontece às 14h na Sociedade Semear. Os encontros voltam à normalidade dia 03 de dezembro, onde os cineclubistas vão discutir a respeito de Cinema na América Latina.

O Instituto de Estudos e Produção Audiovisual de Sergipe  divulga a lista dos  selecionados que integrarão o cineclube do Kipá. O início das atividades do grupo será  nesta sexta, 19, às 14h no Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira, situado na Rua Lagarto, 2161, Salgado Filho.

O cineclube, que tem por objetivo interligar a teoria  à prática, busca também promover a formação de novos realizadores no cenário do audiovisual sergipano, além de fomentar as discussões sobre os mais diversos aspectos que englobam o cinema. A seleção foi realizada pela coordenação de cineclube do Instituto e a novidade é que ao invés de 15 candidatos foram escolhidos 16, devido à alta qualidade das respostas obtidas.

Início dos estudos

Neste primeiro encontro o Cinekipá irá discutir a respeito de um artigo, escrito por Glauber Rocha, intitulado “Uma estética da fome”, que embora seja da época do Cinema Novo, ainda é considerado bastante atual entre os estudiosos de cinema. Todos os selecionados devem fazer a leitura prévia do texto e levá-lo impresso na sexta.

 

Confira a lista dos selecionados (por ordem alfabética):

Allana Rafaela Andrade de Souza

Andreza Lisboa da Silva

Bárbara Juliana Santos Souza

Camilla Grazielli Monteiro Nascimento Santos

Clarissa Campos de Almeida

Cristal Maria Almeida Carvalho

Eudaldo Júnior

Gabriela Caroline Etinger Gomes

Geise Lilian Menezes

Igor Ferreira Franklin

Janaína dos Santos Conceição

Rafael de Jesus Gomes

Ricardo Falcão Teti Júnior

Rodrigo Menezes Silva

Rodrigo Michell  Araujo

Thiago Almeida de Oliveira