De 28 de abril a 1º de maio, estudantes e profissionais de diferentes partes do Brasil participarão do I Festival de Cinema Universitário de Sergipe (Sercine), que acontecerá em Aracaju e contará com exibições de curtas, oficinas de produção, discussões sobre o universo cinematográfico e uma mostra competitiva. O idealizador do projeto, Baruch Blumberg, estudante do curso de Audiovisual da UFS e sócio-fundador do Kipá, fala sobre a sua paixão por cinema e sobre os desafios de realizar o evento que promete movimentar o cenário audiovisual no nosso Estado.

Kipá – Como surgiu o seu interesse por cinema e quando você decidiu que queria trabalhar com a linguagem audiovisual?

Baruch B. – Sou aficionado por cinema desde criança e sempre sonhei em trabalhar neste meio, mas há alguns anos decidi que gostaria de viver de audiovisual, trabalhando com isso.

Kipá – Quais são as suas maiores influências no cinema brasileiro e no cinema internacional?

Baruch B. – No cinema nacional, sou muito fã do Júlio Bressane e do Glauber Rocha, pelos seus experimentalismos. Sou também cada vez mais fã dos trabalhos do Rodrigo Grota, pelo seu esmero técnico e poético. Já dos de fora, gosto muito do Richard Linklater e do Darren Aronofsky, por suas diversificações temáticas e estéticas, e do Krzysztof Kieslowski e do Robert Bresson, pela simplicidade complexa, se é que você me entende (risos).

Kipá – Por que investir em cinema em Sergipe?

Baruch B. – Por todas as suas potencialidades, o setor do Audiovisual/Cinema vem crescendo em todo o mundo e em Sergipe não é diferente. Temos o Curta-se, caminhando para sua 11ª edição, o NPD Orlando Vieira, que é uma ferramenta fundamental de capacitação e fomento da área em Sergipe, como também o curso de audiovisual da UFS, que, acredito, com os investimentos necessários pode se tornar em um dos melhores cursos de audiovisual do país. Há também o surgimento, cada vez mais, de pessoas interessadas em produzir no estado.

Kipá – O que é o Sercine e quem são as pessoas à frente do projeto?

Baruch B. – O Sercine é um festival de cinema universitário que surge com o propósito não só de provocar os realizadores universitários a produzirem cada vez mais, como também de movimentar o setor audiovisual sergipano nesta direção (do cinema universitário), que tem como forte característica a busca pelo experimentalismo técnico e estético. A Jéssica Araújo, o Renan Henriques e o Arthur Pinto são algumas das pessoas que trabalham comigo no projeto.

Kipá – O que é preciso para participar do Sercine?

Baruch B. – O Sercine é aberto ao público e todos podem participar das suas atividades. A programação do festival estará disponível no nosso blog a partir da próxima semana.

Kipá – O que o festival deve trazer de novo para a produção audiovisual no nosso Estado?

Baruch B. – O festival deve possibilitar a ampliação nas discussões em torno deste cenário que cresce cada vez mais, que é a ligação entre o cinema e a universidade. Além disso, os realizadores sergipanos terão acesso a produções universitárias de outros estados e haverá uma maior aproximação entre os setores que compõe o cenário audiovisual sergipano.

Kipá – Você participou da criação do curso de audiovisual da UFS e agora desenvolve um festival de cinema universitário, como é para você a relação entre o cinema e o meio acadêmico?

Baruch B. – Acredito ser de extrema importância a proximidade do setor acadêmico com qualquer atividade social e com o audiovisual não é diferente, é a busca por unir as discussões do âmbito acadêmico com as do meio mais prático.

Kipá – Como membro do Kipá e atual responsável pela Coordenação do nosso Cineclube, que papel você atribui ao Instituto num cenário em que a produção audiovisual e a própria discussão sobre temas relacionados ao cinema são ainda incipientes?

Baruch B. – O Instituto Kipá exerce um papel fundamental nesse sentido, pois busca, seja no Fórum do Audiovisual, seja no CineKipá, fomentar discussões capazes de fortalecer e de expandir o cenário audiovisual sergipano, criando  mecanismos organizados de luta pelo setor.

Kipá – Quais as suas perspectivas para o mercado audiovisual sergipano nos próximos anos?

Baruch B. – Espero que Sergipe se torne um mercado de expansão e descentralização, pois quanto mais diversidades de atores tiverem o setor, mais respeitado ele será.

por Chris Matos | foto: Acervo Kipá

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Noite de estreia para o Cinema Sergipano

Publicado: 8 de abril de 2011 em Diversos

“Xandrilá não é um projeto meu, do Isaac Dourado ou do Arthur Pinto. O filme carrega o nome do nosso Estado e é a prova de que Sergipe é um lugar propício para o cinema”, declarou André Aragão, diretor do curta lançado em grande estilo na noite da última quarta-feira. Diante de uma plateia numerosa, que lotou o Teatro Tiradentes, André falou do desafio que foi tocar o projeto e da satisfação ao constatar o resultado de tanto trabalho.

A ideia da realização do filme surgiu em setembro do ano passado, a partir da leitura do conto homônimo de Isaac Dourado, que decidiu dar vida a um dos seus personagens (Peper) e convidou a atriz e modelo Huana Paula para contracenar ao seu lado, no papel da atrevida Renata. A cantora Antônia Amorosa e o apresentador Bareta também participaram da produção.

Em pouco tempo, o conto transformou-se em roteiro cinematográfico pelas mãos de Cibele Nogueira e de André Aragão. A cantora Patrícia Polayne somou-se ao projeto e assinou a trilha sonora do filme, que contou ainda com músicas da banda sergipana Karne Krua. A fotografia ficou a cargo de Arthur Pinto, e as produtoras sergipanas SeteNove e Gonara Filmes tocaram o projeto, que também teve o apoio do Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira | Programa Olhar Brasil.

Antes da exibição do curta, Isaac Dourado apresentou algumas manchetes de jornal relativas a estupros, assassinatos e fraudes. Ele falou sobre como aquela realidade, tão frequente nos noticiários, serviu de base para a construção do filme. Dourado também criticou a falta de espaço na mídia para temas ligados à arte, à cultura, ao cinema. “Pra que ser artista, pra que fazer cinema se as manchetes dos jornais são sempre as mesmas?”, questionou.

Apresentações da cantora Patrícia Polayne e da banda Karne Krua também marcaram a noite de estreia. Antes de subir ao placo, Patrícia falou sobre a oportunidade de trabalhar junto com a equipe do filme. “Compor para o cinema é gostoso, porque se trabalha com a fantasia, com o imaginário. Xandrilá veio para quebrar tabus, e eu desejo muita sorte para o filme, porque eu acredito que ele vai marcar o cinema sergipano”, afirmou a cantora.

André Aragão e sua equipe apostaram num projeto ousado e tiveram bastante sucesso na produção do curta. O diretor acertou também ao afirmar, antes da exibição de Xandrilá, que “Sergipe é cultura, e Sergipe também é cinema”. Algo que pôde ser comprovado a partir da participação do público durante o lançamento do filme, que foi aplaudido com euforia ao final de sua apresentação.

por Chris Matos | fotos: Marcos Daniel

Mas o que é esse Xandrilá?!?!?

Publicado: 4 de abril de 2011 em Diversos

“Assistam o filme e vocês vão descobrir o que é o Xandrilá”

Últimas palavras da produção.

 

Para mais informações:

http://www.xandrila.blogspot.com/

“Tião e Lenardo Lacca em 1 minuto”

Publicado: 2 de abril de 2011 em Diversos

 

Tião e Leonardo Lacca são membros da produtora Pernambucana Trincheira Filmes e assinam a produção de curta-metragens como: “Décimo Segundo”, “Eisenstein” e “Muro” (premiado com o Regard Neuf, em Cannes).

Eles estiveram presentes no chá de cadeira promovido pelo Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira em março, em comemoração ao aniversário de Aracaju, e o Kipá aproveitou para puxar uma conversar sobre cinema e cultura.

Para conhecer mais sobre a Trincheira Filmes:

http://www.trincheirafilmes.com/

A estética documental tem ganhado força não apenas no cinema, mas também em diversos outros setores do audiovisual, como na publicidade, por exemplo. Ao mesmo tempo, percebe-se que a linguagem adotada no documentário, em que as narrativas se aproximam mais do real, torna-se cada vez mais híbrida, o que relativiza os limites entre o gênero e a ficção.

A riqueza do tema foi objeto de discussão entre estudantes, professores, profissionais da área e pessoas interessadas no assunto na noite de ontem, durante a abertura do ciclo de mesas temáticas do projeto Cine Olho – Cinema e Educação. O evento, que reafirma a parceria entre o Sesc e o Instituto Kipá, contou com a participação da jornalista Suyene Correia e da professora em Multimídia Beatriz Colucci e aconteceu no auditório do Sesc – Centro.

Durante as exposições das ministrantes, Suyene defendeu não haver competição entre o documentário e a ficção, e também aproveitou para ressaltar algumas das especificidades da linguagem documental. “A realização de um documentário é tão difícil quanto a de uma ficção. Talvez, a sua produção seja menos onerosa e mais viável, mas as dificuldades são as mesmas”, defende a jornalista.

“É importante lembrar que o documentário é realizado sempre a partir de um ponto de vista. Apesar de o cineasta tentar esvaziar-se de si mesmo na realização de um trabalho documental, esse exercício é muito complicado”, pontuou Beatriz ao definir como são tênues os limites entre a ficção e o documentário.

Suyene e Beatriz também aproveitaram o espaço para falar sobre a prática do cinema no nosso Estado. As duas concordam que a produção em Sergipe é ainda pequena e que a criação do curso de Audiovisual, assim como a instituição de núcleos formados por pessoas dispostas a discutir e produzir cinema, deve contribuir para fortalecer o cenário local. “O Instituto Kipá pode ser o início dessa mudança, no sentido de agir enquanto aglutinador dos sergipanos interessados no audiovisual”, declarou Suyene.

As mesas temáticas ocorrem durante as últimas quintas-feiras de cada mês, a partir das 19h. A participação é livre e a entrada é gratuita. A programação das próximas mesas estará disponível no site do Sesc www.sesc-se.com.br e no blog do Kipá.

por Chris Matos

“Deus e o Diabo na Terra do Sol” é um filme escrito e dirigido por Glauber Rocha. O filme começa com Emanuel e Rosa sofrendo com a seca, por conseqüência, a fome, a miséria se tornam presentes na vida desses sertanejos. Emanuel tem uma entrega a fazer, levar dezesseis vacas até o Coronel Morais. Ao chegar, quatro vacas tinham morrido picadas por cobras. Coronel Morais  diz que não vai pagar o vaqueiro. Então, Emanuel, lembrando da fome e da miséria que passa se desespera e mata o coronel.

A partir daí a saga do casal começa, fugindo da pobreza, indo à busca dos seus destinos. Vão ao encontro do beato Sebastião que se diz santo e milagreiro. O profeta promete a seus seguidores prosperidade e salvação. Ao longo da história o profeta se mostra louco, alucinado e promete o impossível ao povo, que com tanta miséria, fome e necessidades precisa ouvir algumas palavras confortadoras para continuarem suas pobres vidas. Emanuel acredita firmemente nas palavras do profeta, mas sua mulher Rosa, percebe a loucura do “falso” profeta. E depois de ver o assassinato de uma criança ela mata o beato Sebastião. Enquanto isso, Antonio das Mortes, um matador de aluguel, a mando dos latifundiários e da igreja, vai atrás do beato Sebastião e seus seguidores. Ao encontrá-los, Antonio, inicia uma chacina, deixando viver somente Emanuel e Rosa para que eles possam contar ao outros sobre a chacina.

Novamente, o casal se encontra perdido no sertão e acaba se encontrando com o bando de Corisco, cangaceiro remanescente do bando de Lampião. Corisco, sendo um homem destemido que muito sofreu na vida, batiza Manuel de Satanás e este agora tem novamente um sentido em sua vida, dessa vez completamente imerso no mundo do crime e do cangaço nordestino. Antônio das Mortes persegue de forma implacável e termina por matar e degolar Corisco, seguindo-se nova fuga de Manoel e Rosa, desta vez em direção ao mar.

“Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964) é um dos filmes mais representativos do Cinema Novo, corrente artística liderada por Glauber Rocha, que teve como adeptos Nelson Pereira do Santos, Ruy Guerra, Joaquim Pedro de Andrade e Cacá Diegues entre outros diretores. Esse movimento foi fundado por jovens cineastas nos anos ciquenta. O cinema brasileiro estava em decadência depois das falências dos grandes estúdios. Rio, 40 Graus” (1955), filme de Nelson Pereira dos Santos, abre espaço para o início deste movimento, que tinha como principal influência o Neo-Realismo Italiano e a Nouvelle-Vague Francesa. Com orçamentos baixos, a principal proposta era fazer filmes anti-industriais, bárbaros e polêmicos.
Música de Heitor Villa-Lobos, do qual Glauber era extremamente fã, cantada por Sérgio Ricardo e com letras próprias do diretor. Ganhou diversos prêmios e festivais por todo o globo. Glauber Rocha, então com 23 anos, conseguiu seu lugar na eternidade com o filme que melhor simboliza o Cinema Novo, que melhor retrata a cultura folclórica brasileira.

Considerado por muitos o melhor filme brasileiro. Deus e o Diabo exemplifica bem a personalidade de Glauber. Sujeito complicado, ambíguo, controverso. Foi mandado para o exílio pelos militares. Traiu a esquerda, apoiou Geisel. Depois traiu os militares e ninguém mais o queria. Muito polêmico, conseguiu a admiração de críticos e cineastas. O próprio Martin Scorsese nunca escondeu sua paixão pela arte de Glauber Rocha e atualmente patrocina a recuperação dos filmes do cineasta baiano.

Glauber diz sobre o filme que: “Eu parti do texto poético. A origem de Deus e o Diabo é uma língua metafórica, a literatura de cordel. No Nordeste, os cegos, nos circos, nas feiras, nos teatros populares, começam uma história cantando: eu vou lhes contar uma história, que é de verdade e de imaginação, ou então, que é imaginação verdadeira. Toda minha formação foi feita nesse clima. A idéia do filme me veio espontaneamente.”

O cineasta baiano é até hoje símbolo daquele que muitos entendem que é o melhor momento do cinema brasileiro. Discutiu a forma como o cinema brasileiro se apresentava as pessoas, e principalmente, a forma como ainda nos colocávamos como latinos colonizados. Dizia que era a hora de nos libertamos desse estigma.


Por Cleiton Lobo

 

…Filmes                       cineolho                        educação                      Glauber!

textos               terra em transe             mensal,            narrativa           cultura/arte

cineclube??       …pessoas…                    SESC                  …         política, arte, prazer!

Plongé           ..enquadramento….                                 Foco

espaço livre.

Não é um quebra-cabeças técnico. É discutir a temática, a narrativa, o conteúdo, as possibilidades metodológicas com quem estiver interessado. Esse é um dos fundamentos que leva o novo projeto do SESC Sergipe (unidade centro): um grupo de estudos em cinema brasileiro composto por estudantes, professores, realizadores, interessados, curiosos… pessoas que se encontram uma vez por mês pelo prazer de compartilhar idéias, discutir, ler textos, fundamentar conceitos e assistir muitos filmes brasileiros.

O projeto lembra até certo ponto um tipo de proposta cineclubista: exibição de filme seguida de uma discussão. Porém, como um grupo de estudos aberto, a idéia é buscar enriquecê-lo e ampliá-lo com as idéias e opiniões de quem estiver fazendo parte. Tudo de maneira que se torne o mais confortável possível para quem estiver participando. Está feito o convite mais uma vez.

O QUE É: GRUPO DE ESTUDOS EM CINEMA

ONDE: SESC CENTRO

ENTRADA: GRATUITA E ABERTA PARA PÚBLICO DE TODAS AS IDADES

QUANDO: TODAS AS ÚLTIMAS TERÇAS-FEIRAS DO MÊS (MENSAL)

PROXIMA EXIBIÇÃO: 26 DE ABRIL

O grupo de estudos em cinema brasileiro é parte do projeto CINEOLHO, um programa de atividades, coordenadas pelo setor de audiovisual do SESC, que buscam (através de mesas temáticas, oficinas, exibições e outros) fortalecer e amadurecer o olhar do público para o cinema voltado à educação.

Para saber mais sobre SESC Sergipe e o PROJETO CINE OLHO:

http://www.sesc-se.com.br/

Para uma busca mais profunda sobre instituições que atuam dentro no cinema e audiovisual, o site do KIPA disponibiliza uma lista de referência:

https://audiovisualkipa.wordpress.com/link-uteis/

Por Marcel Magalhães

Com a exibição do filme “Terra em Transe”, do polêmico diretor brasileiro Glauber Rocha, o Sesc deu início na terça-feira, 29, a mais um dos seus projetos que combinam cinema e educação. O Grupo de Estudos em Cinema Brasileiro tem como proposta não apenas a discussão de filmes nacionais a partir de aspectos técnicos, artísticos, sócio-históricos e políticos, mas também a compreensão do cenário cinematográfico do nosso país.

O Kipá está entre os parceiros do Sesc neste projeto, que contou com a participação de um dos nossos membros, Cleiton Lobo, como mediador durante a noite de abertura. Em meio às discussões, Cleiton destacou alguns dos pontos fundamentais do trabalho deixado por Glauber Rocha e destacou a importância do cineasta enquanto defensor da arte cinematográfica como instrumento de conscientização do seu público. “No Brasil, quando se discute cinema é sempre importante discutir o papel do Glauber e do chamado Cinema Novo. Terra em Transe é um filme mais atual do que se imagina”.

O coordenador do projeto, Wolney Nascimento, concorda que a escolha do filme de abertura do Grupo de Estudos tenha sido certeira e espera que as próximas reuniões contem sempre com a participação de pessoas interessadas em debater o cinema brasileiro e em repercutir essas discussões através das mais variadas formas. “Estamos pensando em desenvolver maneiras de registrar esse projeto para que ele possa ter um maior alcance entre o público interessado. Temos a intenção, por exemplo, de criar um caderno sobre as discussões realizadas aqui”.

As reuniões do Grupo de Estudos em Cinema Brasileiro acontecem durante as últimas terças de cada mês, a partir das 18h30, no auditório do Sesc – Centro. Todos estão convidados a participar, a entrada é gratuita.

por Chris Matos

E o filme da vez é “127 Hours”, ou “127 Horas”, do diretor Danny Boyle, o mesmo do filme ganhador do Oscar de Melhor Filme em 2009, “Slumdog Milionaire”.

Se você achou que “Black Swan” tinha cenas ‘intragáveis’ de auto mutilação e, portanto, saiu do cinema com o estômago revirado, então sugiro que quando for assistir “127 Horas” leve um saquinho para vômito ou, no máximo, um bom remédio para enjôo. O filme é recheado de cenas fortes, que vale a pena lembrar aquela conhecida frase “Proibido para maiores de 65 anos ou para quem tem problemas cardíacos”. Mas se você estiver a fim de encarar esse “show de bizarrice” à parte, esteja a vontade em deliciar esse Thriller com alto nível de tensão e estresse.

O filme é uma adaptação do livro homônimo escrito pelo próprio Aron Ralston (James Franco), que ao escalar o John Blue, nas montanhas de Utah, nos Estados Unidos, sem avisar a nenhum conhecido, acaba sofrendo um acidente e tendo seu braço direito esmagado por uma pedra. Foram exatas 127 horas, 5 dias e 7 horas, entre sede, fome, alucinações, chuva, sol, poeira, torniquetes, entre outras coisas, que são narradas no livro e foram traduzidas, semioticamente falando, para as telas do cinema.

A princípio mais um roteiro em que mostra até que ponto vão os limites do corpo humano e de como superá-los. No entanto, roteiro à parte, o que faz desse filme um espetáculo durante seus 93 minutos, é a trilha sonora, juntamente com a fotografia e direção de arte. Os enquadramentos em primeiro plano, que retratam situações que, normalmente, jamais passariam em nossas cabeças, mas que passam nas de quem está entre a vida e a morte e que um leve fechar de pálpebras, pode significar o seu ultimo suspiro, são fantásticos em sua velocidade de video clipe. Os takes internos que mostram Aron bebendo água, sua urina e até mesmo seu sangue, ele comendo suas lentes de contato, o interior de suas veias, a parte interna do braço, no momento em que detecta a que distância entre a epiderme e o osso, o acelerar do cabeçote da câmera, o simples registro de uma formiga a caminhar pela terra ou por ele; o interior da garrafa de água e do cano de sua sacola térmica e a sequencia final de sua angústia, são verdadeiras obras de arte de pura apreciação, como também, de pura repulsa. É um misto de ansiedade pela liberdade dele, e ao mesmo tempo uma tremenda agonia quanto às cenas mais pormenorizadas que mostram como o tempo passa len-ta-men-te para quem está naquilo. Seja para o próprio Ralston, ou para quem assiste ao filme. Temos então aí, uma boa direção, que em parceria com sua equipe de produção, edição, som, mixagem de som, montagem e por aí vai, criaram um filme eletrizante! Ah! Não posso esquecer também dos diversos enquadramentos que retratam toda a caminhada de Franco até o local fatídico, mas, principalmente, os que mostram suas alucinações e instantes que ele passa preso na pedra. São, como já disse antes, verdadeiras obras de apreciação.

A película mostra também os momentos de alucinação que Aron passa, e compara o ápice do seu limite de paciência e esperança, incluindo o tempo que falta para o desfecho do filme, com o descarregar da bateria de sua filmadora. Ele alucina o seu passado, o seu futuro e o seu presente. Vê seus familiares em diversas épocas de sua vida, como também de seus colegas de trabalho e a mulher que amava. Desculpa-se, ilustrativamente, por não poder comparecer a eventos que ocorrerão, já que pressupõe sua morte, no entanto é assim que ele arranja forças para continuar sua luta. São sequencias de cenas, que bem montadas e editadas, em vários planos e com angulações diversas, traduziram visualmente, o que o psicológico de Ralston teria passado pelo que deve ser narrado no livro, como fazem o mesmo para quem assiste esses momentos. A partir de suas alucinações iniciais, ele chega ao que eu diria ser a mais caótica. Deduz que a pedra, que prendera seu braço, o aguardava naquele local por toda a sua vida e que todos os seus atos egoístas, que cometera até então, têm sua justificativa por causa daquele objeto, que estaria pondo sua vida em risco. Uma espécie de loucura compreensível para quem está vivendo aquilo. Contudo, vale ressaltar que a sucessão de cenas finais da fenda em que a personagem real de Franco se encontra, acaba sendo, exageradamente, sensacionalista e apelativa. Não é a toa que o diretor Boyle, teve que se desculpar, em público, aos muitos que passaram mal assistindo ao filme, tendo alguns que inclusive, deram entrada em hospitais, pelas cenas bem fortes que viram. Tudo bem que no livro, os fatos tenham sido narrados com extrema delicadeza e requintes de frieza, mas quem assiste não é obrigado a passar vários minutos vendo uma mesma coisa narrada, filmograficamente falando, de maneira cruel. Por mais que muitos digam não ser para tanto, haver desmaios e adjacências.

A atuação de James Franco está ótima. Ele, com certeza, deve transparecer mesmo cada segundo de aflição e tensão que o verdadeiro Aron Ralston passou durante aquelas 127 horas preso pelo braço em uma rocha que deslizou por cima dele. As indicações que recebeu por Melhor Ator, no Oscar de 2011, e a de Melhor Ator de Drama, no Globo de Ouro 2011, são mais do que justas. Ele realmente merece esse reconhecimento por seu trabalho. Afinal, é ele quem leva todo filme em suas costas. A crítica especializada afirma ainda que, James Franco interpretou bem melhor Aron Ralston do que o próprio. Uma salva de palmas para ele, meus caros e queridos leitores! Obrigado!

“127 Hours” recebeu seis indicações ao Oscar 2011, que foram as de Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Canção Original, Melhor Trilha Sonora e Melhor Montagem. Recebeu 3 indicações ao Globo de Ouro 2011, que foram de Melhor Ator de Drama, Melhor Roteiro e Melhor Trilha Sonora. E foi indicado a Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator no Film Independet Spirit Awards (FISA), que terá sua premiação na véspera do Oscar, dia 26 de fevereiro de 2011. Segundo, mais uma vez, os críticos profissionais, o filme é bastante impactante, com os diversos “cacos” problemáticos típicos da direção de Boyle, e, portanto, não deve ser levado em consideração como um forte candidato às premiações que teve. Tanto que, tirando o Oscar e o Fisa, nas do Globo de Ouro, premiação que é boa, zero!

“127 Horas”, produzido em 2010, com direção de Danny Boyle, roteiro adaptado por Danny Boyle e Simon Beaufoy, baseado no livro homônimo de Aron Ralston, com fotografia de Enrique Chediak e Anthony Dod Mantle, direção de arte de Christopher R. DeMuri, música de A.R. Rahman, figurino de Suttirat Larlarb, edição de John Harris, tem duração aproximada de 93 minutos, incluindo os créditos finais.

 

Por Ricardo Montalvão

Adentrar na cultura japonesa, para nós ocidentais, não é fácil. E é impressionante o número de pessoas, esses cults da vida, que amam tudo oriundo do Japão. Mas para sentir a essência da arte japonesa é preciso transcender. Ou como diria um filósofo chamado Martin Heidegger, “para entender o Japão é preciso morar nele”.  É de essência que podemos citar o teatro japonês, o Kabuki, ou um Rashomon, de Kurosawa (quer filme mais imagético e simbólico para pensar a arte japonesa?).

Mas quero falar de um filme muito feliz: Air Doll ou Boneca Inflável  – veja o trailer – no português, do diretor Hirokazu Koreeda. A uma simples vista, o roteiro parece não apresentar nada de especial: um garçom visivelmente comum e sem muitos projetos de vida, e sua boneca inflável que, além de servir para os desejos sexuais, é sua companheira. Mas a boneca, chamada Nozomi, começa a se humanizar, cria movimentos e descobre que o mundo é muito mais que aquela esfera inserida. Nozomi começa a explorar o bairro, já que seu ‘dono’ trabalha o dia todo, arruma um emprego e constrói laços sociais. E o diretor Koreeda não dispensa lirismo e uma excelente trilha sonora para representar essas questões.  Uma das cenas mais lindas do filme é quando Nozomi sente as gotas da chuva na palma da mão e olha para o tempo nublado. A transformação do corpo de plástico para o corpo vivo (o rompimento de fronteiras) traz o sentimento, não só de humanização, mas de percepção. E o grande desafio da personagem é sobreviver num mundo cercado de pessoas sem muitas ambições de vida, o que coloca Nozomi à frente, atemporal. Atemporal porque ela se coloca na condição de objeto e, portanto, fora de uma ordem temporal biológica, e também porque ela carrega a grade crise existencial de ser um “ser vazio”.

Outra cena bela do filme é quando Nozomi conversa com um senhor qualquer num banco de uma praça. Desabafando com o senhor de ser um ‘ser vazio’, fadada ao destino de servir apenas como objeto de uso para seu dono, o senhor a responde: mas todos nós dessa cidade somos vazios. Aqui reside a critica do filme. Lançados olhares mais críticos sobre o filme do Koreeda, podemos levantar dois pontos para análise: a questão do corpo, que é culturalmente construído – e a questão do corpo vazio e submisso; e a questão do sujeito no mundo. Tratarei resumidamente esses dois pontos, a ponto de que não venha me tornar enfadonho e de que ninguém bata no computador ou na madeira de forma assustada.

A boneca que cria vida é a grande metáfora do filme para se discutir o corpo, portanto não se assustem com o elemento fantástico, passa longe de Koreeda a ideia do filme Brinquedo Assassino do boneco que ganha vida (!). O corpo é o eixo das relações com o mundo, é dele que emanam os sistemas simbólicos, ou como diria Durkheim, o fator de individualização. Mas não me interessa entrar na sociologia do corpo. (ver David Le Breton). Convém destacar os três sintomas do corpo: 1º) o corpo num mundo que é apresentado emotivo e móvel; 2º) o corpo que é culturalmente construído; 3º) a simbiose do corpo frente às relações tecnológicas (ver Lucia Santaella ‘Corpo e Comunicação’, cap.1). Certo que o corpo é um nó de múltiplas inquietações e está diante de uma pluralidade de caminhos (acentuadamente na contemporaneidade ou a chamada pós-modernidade). Com isso, é inevitável o surgimento de novas subjetividades que são socialmente inscritas. Foucault por exemplo – falar de corpo tem que falar de Foucault – diz que o corpo preexiste como superfície, constituído de discurso. O corpo, meus amigos, também é linguagem. Ou para lembrar uma frase do Deleuze: “o corpo é aquilo no qual mergulha o pensamento, a fim de chegar ao impensado”.

O filme também levanta a discussão do corpo submisso, do corpo vazio. Lembro de uma frase do Foucault no livro Vigiar e Punir: “O corpo só se torna força útil se é ao mesmo tempo corpo produtivo e corpo submisso”. Essa frase vai de encontro às novas formas de punir no espaço do século XVIII e XIX e os castigos que tiverem o corpo como objeto para controlar suas forças. A metáfora de Nozomi submissa nos faz pensar essas questões. Mais além: Nozomi como alegoria de uma sociedade e de corpos submissos. E vazios porque não nos conhecemos, ou como diria a filosofia heideggeriana, não conhecemos nosso ENTE (suspenso no ser), não transcendemos. No mundo, é preciso transcender, conhecer a essência de nosso ‘ente’ para compreendermos o ser-no-mundo. Quantas e quantas Nozomis não estão por aí nas ruas? Não somos um pouco Nozomi?

Paralelo às questões do corpo, o filme põe em xeque a questão do sujeito, porque se o corpo é constituído culturalmente, o sujeito é constituído historicamente. Lucia Santaella tem uma brilhante fala: O corpo está sob o fantasma do sujeito. Isso porque o sujeito só se expressa por meio de um corpo para ser universalizante. O sujeito é. E não há como pensar um sujeito fora do campo da história, da linguagem, da cultura, principalmente das relações de poder. Pelo sujeito podem-se pensar novas formas de subjetivação. De um lado subjetividades em movimento (que foi pensada por Deleuze); de outro, subjetivações que são regimes de signos (o que Peirce na semiótica teorizou, e mais além: o próprio homem como um signo). O sujeito, frente ao objeto (Outro), abre as relações de identidade. E como podemos ler uma identidade em crise, numa pós-modernidade? (ver Bauman, ‘Identidade’, Giddens, ‘Identidade e Modernidade’). Ora, a personagem Nozomi carrega toda a crise de identidade da pós-modernidade. O sujeito também pode ser expresso na discussão do ser que perpassa toda a obra de Martin Heidegger, pelo viés da metafísica, hermenêutica e lógica. Através do filme Air Doll, essas e outras questões podem ser amplamente discutidas. Um filme que merece ser visto e que deve ser lido para além da historinha contada.

 

Por Rodrigo Araújo